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Como Estruturar ou Planejar sua História (Artigo+)

Atualizado: 30 de jun. de 2023

Escrito por: Eduardo Goétia e Paulinha Hanekawa


Conforme passei a dar aulas dentro da Tutoria da Novel Brasil, notei que uma pergunta se repetia de tempos em tempos por diferentes arquétipos de pessoas. Num primeiro momento, acreditei apenas ser uma idiotice, mas isso era uma coisa de babaca; nenhuma pergunta é idiota.


Percebi então que para mim parecia ser algo idiota, porque era simplesmente um tema citado em outros muitos estudos que me fez pensar que fosse senso comum. Neste ponto, lembrei de quando era iniciante e tinha os mesmíssimos pensamentos. A pergunta então me pareceu ser muito mais inteligente.


Esta pergunta variava, mas era sempre em um contexto como esse: recomendação de leitura, ou em aulas iniciais de escrita em que, por acaso, dizíamos:

É necessário ler livros para se escrever livros. É necessário ver filmes para se fazer filmes. É necessário devorar uma mídia para poder reproduzi-la.

No Manual do Roteiro de Syd Field, ele diz num grande trecho que posso resumir como:

Para se escrever sobre um assunto, é necessário conhecer este assunto e de que outra forma se não com pesquisa é que se aprende?

E o que é ler outras obras se não a maior das formas de pesquisa? Mas, então, qual era a bendita pergunta?


Como disse antes, ela variava, varia e vai ainda variar, mas é mais ou menos assim: “Como as primeiras pessoas construíam histórias e escreviam se não havia outras obras a quais se ler?”


Para aqueles que estudam filosofia, história, antropologia, linguística e muitos outros estudos, isto está mais do que claro. O ser humano é naturalmente propenso a saber contar histórias (é algo natural). Para aqueles que acham que escrita e narrativa é talento, meus parabéns! Você acertou? Quase. O problema é que este tipo de pessoa pensa que é um talento único, para poucos, enquanto, na realidade, todos nós nascemos com o talento para contar uma HISTÓRIA!


Então, agora que peguei sua atenção, vamos ao ponto deste artigo: estruturas narrativas.


Primeiro, coloque na sua cabeça que uma estrutura narrativa é um “molde” e não uma “fórmula mágica”, então não necessariamente você vai escrever algo incrível e que todos vão gostar só porque seguiu isso.


Segundo, que é impossível agradar todo mundo. Pessoas tem vivências diferentes, gostam de coisas diferentes e tem sentimentos diferentes. O que me trás emoção não é necessariamente o que vai trazer emoção para você.

As pessoas leem ficção pela emoção; não pela informação

– Barnaby Conrad.”

Terceiro, e por último, leve em conta que as estruturas narrativas foram criadas baseadas na forma como boas e grandes histórias eram feitas, ou seja, narratólogos, escritores e linguistas analisavam histórias boas e ruins e descobriam o porquê de algumas funcionarem e outras fracassarem. Com base nisso, criaram o que temos hoje.


A Estrutura de Três Atos (ou Quatro?)

 

Antes de mais nada, gostaria que observasse o seguinte:

Exposição, confrontação e resolução Situação inicial, complicação, situação final Apresentação, desenvolvimento e conclusão Prótase, Epítase, Catástrofe Começo, meio e fim

Como pode notar, há vários nomes: alguns deles que são bem incomuns e outros que você já deve ter ouvido falar. No entanto, isto não é nada complicado. Fazendo um resumo do resumo, a realidade dita que estes trios são a mesmíssima coisa.


Toda história tem: início, meio e fim. Parece óbvio, não...? Nem tanto.


Aristóteles trouxe ao mundo os três termos: Prótase, Epítase e Catástrofe no, considerado por muitos, o mais antigo manual de roteiro e escrita criativa: A Poética.


Antes de entender, é necessário que você saiba o que é a “ficção”, ou “ação”, seja ela curta ou longa, grande ou pequena, simples ou complexa, que é basicamente o “enredo”. Simplesmente o: “do que se trata sua história?”. Pergunta essa que espero que todo o escritor tenha na ponta da língua.


O começo, prótase, apresentação, situação inicial ou exposição é onde se inicia a história. Este início não precisa ser o começo da vida do personagem, ou o começo de uma grande batalha e muito menos o começo do universo da história. Ele é o começo daquele “pedaço” de história que você deseja contar.


O começo é algo que não precisa ser seguido de outra coisa para ser funcional. Outras coisas aconteceram antes? Pode ser que sim, mas o começo é o ponto inicial em que é possível se entender o que se sucede sem se prejudicar a clareza.


O fim, catástrofe, conclusão, situação final ou resolução é onde se finaliza aquele “pedaço de história”. Não precisa ser o final de tudo, mas apenas daquele único pedaço de história. A trama se encerra, porém a vida continua.


O meio, epítase, desenvolvimento, complicação ou confrontação é onde os principais pontos da trama se encontram. Toda a ação gera um reação. O fim é consequência do começo que é demonstrada pelo meio. Não existe um meio sem um começo ou fim. Um acontecimento no início, leva ao meio, e um acontecimento no meio, leva ao fim. Causa e efeito. Ação e Consequência.


Se ainda não entendeu, vamos a um exemplo, usando Harry Potter e A Pedra Filosofal.

  • Começo: Harry Potter sofre nas mãos dos seus tios até descobrir que na verdade é um bruxo convidado para Hogwarts. Harry e outros alunos chegam á Escola. É apresentado o Campeonato das Casas.

  • Meio: Um Troll Invade o colégio e Harry suspeita de Snape um de seus professores. Durante um jogo de Quadribol a vassoura de Harry o desobedece e ele acha que foi Snape. Enquanto estava na floresta, Harry se encontra com Voldemort e é salvo por um Centauro.

  • Fim: Harry acha que Snape passou pelo Cerberus. Ele e seus amigos enfrentam vários desafios. Harry sozinho descobre que o traidor era Quirrel ao invés de Snape. Harry mata Quirrel e a alma de Voldemort foge. Grifinória ganha o Campeonato das Casas e Harry volta para casa durante as férias de verão.

Claro, acontecem muitas outras coisas entre o começo e o fim, mas o cerne da trama principal pode ser facilmente refletido nesse resumo.


Antes do primeiro livro de Harry Potter, havia um universo inteiro pré-existente e acontecimentos passados aparecem durante a narrativa da Pedra Filosofal. Como a maioria deve saber, Harry Potter foi uma série de livros, então o fim do primeiro foi apenas o fim da trama construída naquele “pedaço de história” e não um final definitivo para o universo fantástico construído por J.K Rowling.


E, então, você se pergunta, o que eu preciso por no começo, no meio e no fim? Acalme-se um pouco e respire que mais para frente contarei.


Veja a seguinte imagem:

Como vocês podem ver, há um curvatura para cima no meio e ele prossegue até descer. Este é um ponto engraçado da Estrutura de Três Atos, pois observa-se que em alguns livros na verdade ela é uma de Quatro.


Normalmente se separa o tempo de cada Ato desta forma:

Podendo se ter ou não ter um Clímax entre o fim do Ato 2 e o começo do Ato 3. Quando não se tem um clímax, chama-se “Anticlímax” e este é o ponto. Muitos manuais de roteiro ditam que o Clímax é o ponto mais alto de tensão da sua história e que ele é estritamente necessário, por conta disso podemos separar a estrutura de três atos em quatro.

Sendo o final do Ato 2/2 o clímax, ou até no começo do Ato 3. Leia nosso artigo sobre controle de Tensão e Conflito para entender melhor.


Com isto tudo que aprendeu na mente, leve em conta que histórias funcionam no Macro e no Micro e elas sempre terão Início, Meio e Fim.


Na série Arcane da Netflix, podemos ver como exemplo a separação por Atos e que mesmo dentro de todos eles tem começo, meio e fim que levam a um maior.


No Ato 1 por exemplo:

  • Começo – Episódio 1: As crianças invadem a casa de Jayce e roubam o Hextech. Ocorre uma explosão. As crianças fogem e Powder perde a tecnologia, mas ainda mantém um núcleo. Os executores buscam as crianças. Vander os protege, mas sabe que custará um preço. Silvo e sua terrível Cintila são apresentados.

  • Meio – Episódio 2: Jayce é preso e quase exilado, mas é apenas expulso da academia. Viktor se interessa pela tecnologia de Jayce. Vander controla as pessoas de Zaun que querem guerra e os Executores quase capturam as crianças. A tensão aumenta mais e mais.

  • Fim – Episódio 3: Vander se entrega aos Executores no lugar das crianças, porém Silco surge, captura Vander e mata todos os outros. As crianças vão resgatar o Vander, deixando a Powder para trás. Vi luta contra os capangas, mas é derrotada pelo monstro criado pela Cintila. Powder vê o Hextech e decide agir, criando uma explosão que acaba atrapalhando mais do que ajudando. Jayce e Viktor estabilizam o Hextech. Vi chama a Powder de Jinx por ter acidentalmente matado a todos e a garota corre para chorar no colo de Silco. Vi é presa por um dos Executores.

De fato, o ato 1 de Arcane é uma tragédia, mas cumpre com seu objetivo de ser o começo da história e mesmo ele possui dentro de si uma estrutura de três atos que resulta em outra ainda maior. Os próprios capítulos de Arcane são construídos dentro de uma estrutura de três atos.


No Macro ou no Micro, ela é essencial para que algo se desenvolva bem. Um parágrafo tem começo, meio e fim. Uma frase tem começo, meio e fim. Um capítulo tem começo, meio e fim. Um ato possui começo, meio e fim. Histórias possuem começos, meios e fins.


O que precisa ter no Começo, no Meio e no Fim?

 

O começo serve para apresentar os personagens, a vida, ou seja, do que se trata a sua história, a premissa dramática, que é o que fará ela andar, apresentar as relações que os demais personagens tem com o protagonista da história e mostrar o contexto do mundo conhecido (mais relevante para histórias que não se passam no nosso mundo. Realidades alternativas e mundos criados do zero).


O meio é onde os conflitos se intensificam. O personagem principal enfrenta um desafio seguido do outro que o impedem de alcançar seu objetivo. Aqui a história é impulsionada pela necessidade dramática do protagonista.


Obs.: Para saber mais sobre necessidade dramática, acesse o artigo sobre construção de personagem.


O fim. Pode ser engraçado, mas o fim não é o final; ele é a resolução, ou seja: a solução do conflito. É aqui que vemos as consequências de tudo o que aconteceu anteriormente. O protagonista alcança ou não o que queria? A resolução resolve aquele “pedaço de história”, mas seu verdadeiro fim é aquela cena, imagem, ou frase que termina a história.


Kishotenketsu (A Estrutura de Quatro Atos)

 

Webnovels, ainda mais as brasileiras, são um gênero literário bastante recente. É fato que a maioria dessas produções nativas do nosso país são bastante inspiradas nas mais populares obras asiáticas, sejam elas coreanas, japonesas ou chinesas.


Ainda mais, existem muitas pessoas que entram na escrita por meio de outros tipos de ficção asiática, como animes e mangás. Mas o que a maioria não sabe, é que esses autores utilizam uma estrutura um pouco diferente da que estamos acostumados em obras ocidentais.


Por exemplo: para um autor europeu, se você dissesse que o conflito não é importante para a existência de uma trama interessante, ele diria que você está totalmente louco. Mas para escritores do extremo oriente, o negócio é bem diferente.


O Kishotenketsu, estrutura mais usada na literatura japonesa, não é movida pelo conflito. Não necessariamente significa que ele não existe, mas não é o objetivo principal de uma obra construída assim.


Mas então, o que move a história no Kishotenketsu? A expectativa do leitor.


Os quatro atos são construídos para brincar com o que o leitor está esperando em uma história, criando um desenvolvimento profundo das motivações dos personagens, e então revelando uma reviravolta que muda absolutamente tudo.


Os quatro atos presentes nessa estrutura são: Ki, a introdução; Sho, o desenvolvimento; Ten, a reviravolta e Ketsu, a conclusão. Eles são executados da seguinte forma:

  • Ki, a introdução (12,5% da história): A primeira parte da história se inicia, geralmente, com uma exposição. Os protagonistas e a situação comum na qual eles vivem suas vidas é apresentada neste ato. Geralmente, nesse momento, sabemos poucos detalhes sobre como o mundo funciona ou sobre a mente de todos os personagens, pois essa exposição inicial é apenas para que fiquemos familiarizados com onde a história vai acontecer.

  • Sho, o desenvolvimento (50% da história): A parte mais longa da história. É aqui onde o mundo irá se amplificar para demonstrar todas as suas partes relevantes. Todos os objetivos e problemas dos personagens serão desenvolvidos neste ato. Basicamente, todas as peças necessárias para a história serão movidas às suas respectivas posições, fazendo com que o leitor se acostume com o estado geral dela.

  • Ten, a reviravolta (25% da história): Agora que está tudo estável, esse é o momento onde um acontecimento vira tudo de cabeça para baixo. Às vezes uma revelação do passado, ou até mesmo a aparição de um novo personagem com objetivos diferentes, o importante é que isso surpreenderá o leitor, que já estava acostumado com o que foi desenvolvido anteriormente na história.

  • Ketsu, a conclusão (12,5% da história): Agora que a reviravolta aconteceu e deixou todos os leitores num estado máximo de envolvimento, precisamos finalizar a história. Como a história irá ficar com essa revelação? Será que tudo voltará ao normal pelas ações dos personagens? Ou será que nunca poderão voltar ao que era antes, tamanho o poder desse acontecimento? É aqui que tudo se resolve.

Considerando essa necessidade extrema de uma grande reviravolta para surpreender o leitor, talvez essa estrutura de quatro atos te lembre alguma coisa bem familiar. Sim, o Kishotenketsu parece muito com a mecânica de uma piada.


Em uma piada, nós temos uma introdução (Ki), que apresenta um acontecimento normal, um desenvolvimento (Sho), que vai criando uma expectativa no ouvinte sobre esse acontecimento, e uma reviravolta (Ten), que muda tudo que foi apresentado antes. E, por último, quem ouve a piada participa na conclusão (Ketsu) decidindo se riem da piada ou não.


Vamos tomar como exemplo a seguinte piada:

Dois homens estão sentados em um banco. Um deles diz: — Eu conheço uma mulher que tem uma perna de madeira que se chama Maria. — O outro, surpreso, responde: — Sério? E qual o nome da outra perna?

E então, podemos separar todos os pontos dessa piada nos atos que compõem o Kishotenketsu:

  • Ki: Dois homens estão sentados em um banco.

  • Sho: Um deles diz: “Eu conheço uma mulher que tem uma perna de madeira que se chama Maria.”

  • Ten: O outro, surpreso, responde: “Sério? E qual o nome da outra perna?”

A situação é introduzida a partir do Ki, onde entendemos quem são os nossos personagens e qual a situação inicial deles. Com o Sho é apresentado um desenvolvimento maior sobre qual é o contexto da conversa dos dois homens, construindo uma história. E, enfim, o Ten chega para criar uma surpresa no que nos foi apresentado anteriormente, criando o humor.


E essa não é a única forma na qual o Kishotenketsu pode ser aplicada fora de ficção. Podemos ver ele em poemas, principalmente orientais, por essa ser uma das origens da aplicação dessa estrutura.


Como podem perceber, essa estrutura é bastante livre em seu desenvolvimento, não ficando presa a vários detalhes de desenvolvimento. O autor pode criar qualquer tipo de história, mesmo sem a necessidade de um confronto entre duas partes onde eventualmente uma delas vence a outra.


A natureza caótica do Ten faz com que essa estrutura frequentemente gere histórias bastante imprevisíveis, já que, como o leitor não tem certeza que o conflito é o cerne de tudo, e que algo necessariamente vai sair vitorioso no final, o autor pode inventar diversas formas criativas de virar a história de ponta a cabeça e deixá-lo envolvido.


Uma das coisas mais interessantes do Kishotenketsu é que, pela extrema liberdade que o autor tem na sua aplicação, é possível usá-la não somente no planejamento da história toda, mas em vários níveis.


Isso quer dizer que você não precisa apenas usar essa estrutura para planejar a história toda, mas pode também colocá-la em capítulos, arcos, volumes, etc.


Acredite se quiser, mas a maioria dos mangakás utiliza o Kishotenketsu até na hora de estruturar uma página ou um quadro. As possibilidades são infinitas.


Vamos tomar como exemplo, o capítulo 1 de Tokyo Revengers para que possamos ver na prática como a estrutura de quatro atos é aplicada.

  • Ki: A história começa mostrando o protagonista, Takemichi Hanagaki, e sua vida deprimente como um simples trabalhador de loja. Esse começo também mostra rapidamente a morte de sua ex-namorada pela gangue Tokyo Manji, algo que será desenvolvido mais tarde, mas sem mais detalhes. Após refletir muito, o protagonista é empurrado na frente da linha de um trem, onde devia morrer.

  • Sho: Ao invés de morrer, Takemichi retorna ao passado, 12 anos atrás, quando ainda estava no ensino fundamental. A partir daí se desenvolve toda a história do seu passado antes de ele se tornar aquele homem deprimido com um emprego ruim. Descobrimos diversas coisas sobre a história, como o fato de ele ser um mini-delinquente e arranjar, junto com seus amigos, uma briga com uma gangue maior e mais forte, chamada Tokyo Manji, fazendo com que ele se tornasse escravo deles. Também descobrimos quem é, afinal, a ex-namorada dele que acabou de morrer: Hinata Tachibana.

  • Ten: Após todo o desenvolvimento do passado de Takemichi, ele se retira da casa de Hina, encontrando no meio do caminho um garoto mais novo que ele sendo ameaçado por delinquentes. Takemichi o salva e descobre que o garoto não é ninguém mais, ninguém menos, que o irmão de Hina, Naoto, que havia morrido junto com ela. Nesse momento, o protagonista diz para o garoto que é um viajante no tempo e pede para que ele proteja sua irmã. Depois disso, eles apertam as mãos, fazendo com que Takemichi retorne ao futuro. Ele descobre que foi salvo do acidente de trem por um detetive de polícia. E esse detetive era o mesmo Naoto com quem havia acabado de conversar. Com isso, o ponto principal da reviravolta se revela: Takemichi foi capaz de salvar Naoto e mudou o futuro ao conversar com ele no passado.

  • Ketsu: A história se encerra com Naoto revelando que após o pedido de Takemichi, ele se tornou um detetive com o intuito de salvar sua irmã, mas não conseguiu. Assim, o capítulo se finaliza com a afirmação de que o protagonista poderia voltar ao passado novamente para salvar a garota.

Como é possível perceber, a história toda deste capítulo se seguiu sem nenhum confronto. Os principais elementos do enredo foram a exposição sobre os problemas do protagonista e como era seu passado, mostrando uma viagem no tempo. Isso deixou o leitor em dúvida sobre as mecânicas da viagem no tempo.


E tudo isso se seguiu com uma revelação surpreendente sobre esse salto temporal. Que era possível para o protagonista mudar a história e salvar uma vida simplesmente tendo uma pequena conversa com alguém do passado.


Aplicando essa estrutura de exposição e contraste em todos os capítulos, você pode garantir que o leitor sempre se surpreenda e nunca fique entediado enquanto lê sua história. Lembre-se, mesmo que você tenha uma história incrível na sua cabeça, se apenas uma parte dela for entediante, ela será imediatamente esquecida.


Então, em resumo, aprendemos que um confronto entre duas partes opostas, que é tão presente em estruturas ocidentais, não é o cerne de toda história e é possível criar uma ótima obra sem precisar disso. Tudo que necessitamos é surpreender o leitor e fazer com que ele queira mais.


Mas, apesar de termos os três atos e quatro atos como duas estruturas diferentes em intenção, ainda temos uma terceira que ganhou uma grande notoriedade por ser considerada mais completa.


As Estruturas de Cinco Atos: As Super Estruturas Narrativas

 

Sabe-se pelo poeta Horácio que uma peça não deve passar do quinto ato. Passou-se muito tempo desde Horácio e Aristóteles, e o teatro sofreu uma grande evolução. Autores se aprimoraram e usaram Horácio e Aristóteles como inspiração para construírem novas estruturas.


Sabiam eles que entre os atos da estrutura de três atos ocorriam ainda muitos acontecimentos relevantes. Eles perceberam que entre o começo e o meio deveria ter alguma coisa, assim como entre o meio e o fim.


A Pirâmide de Freytag

 

Isto levou o dramaturgo e romancista alemão Gustav Freytag a criar sua própria estrutura no seu manual de escrita, Die Technik Dramas. Freytag propôs a seguinte estrutura:

A estrutura pode parecer muito similar a de três atos, mas há sim diferenças. Ambas as estruturas mantém o começo, meio e fim, mas a de cinco atos adiciona mais dois pontos chaves.


A Introdução é onde o contexto, os personagens e a ação dramática é apresentada, justamente o começo da história, assim como faz o começo da estrutura de três atos.


Na Elevação da Ação algo acontece, construindo um conflito que leva a um choque entre as partes opositores. Exemplo: protagonista quer um objeto A, mas descobre que terá que enfrentar algo ou alguém para obtê-lo.


No Clímax o conflito finalmente estoura e as partes não podem mais voltar atrás.


No Declínio da Ação um vencedor surge do conflito.


A Conclusão é o desenlace, a resolução do conflito e seu fim, seja ele positivo ou negativo.


À primeira vista parece ser uma boa estrutura narrativa e realmente é, mas há um certo problema. Freytag organizou sua estrutura com o Clímax, o ponto mais alto de tensão, ainda no meio da história.


A escrita se trata de prender a atenção dos leitores durante toda a narrativa e quando o conflito se encerra muito antes da resolução, as coisas passam a serem meio que empurradas com a barriga. O final tarda demais a chegar e esse era o problema da Pirâmide de Freytag. Atualmente ela não é tão usada por essa razão, mas Shakespeare e Sófocles ainda fizeram bom uso delas nas obras Romeu e Julieta e Édipo Rei.


Um caso interessante é que A Pirâmide de Freytag é uma ótima estrutura narrativa para história com arco de Icarus. Ascenção e declínio. Acaba que essa estrutura na verdade não é universal, mas específica para esse tipo de arco.


Para mais informações leia nosso artigo sobre os 6 tipos de Arcos.


O Esquema Quinário

 

Para resolver este problema, foi desenvolvida outra estrutura narrativa. Veja:

O Esquema Quinário, também conhecido como Esquema Canônico, também foi uma estrutura narrativa desenvolvida e a mais utilizada na criação de histórias. Ela é a superestrutura narrativa.


Neste esquema a narrativa se define fundamental na transformação de um estado (inicial) para outro estado (final). E esta transformação é definida pelas seguintes cinco etapas:

  • Estado Inicial que funciona como a introdução e o começo das outras estruturas. Apresentação dos personagens, contexto e ação dramática.

  • E então é introduzida a Complicação, que também pode ser chamada de Força Perturbadora, pois é um evento que dá andamento para a narrativa. É onde ocorre algum acontecimento que impede a história de seguir seu estado quo.

  • A Dinâmica se coloca no lugar do meio e do clímax com o objetivo de preparar o terreno para a resolução. Neste ponto, há os primeiros conflitos menores e até o encontro das partes que se opõem na história, resultando na primeira derrota ou vitória de um dos lados.

  • A Resolução passa então a ser o ponto alto da trama, tendo seu clímax nele e introduz o novo estado da narrativa. Ela funciona similar a outras formas de resolução e também é chamada de Força Equilibradora.

  • Chegando então ao Estado Final que só será afetado no caso de ocorrer uma nova Complicação, que o fará se tornar o novo estado inicial.

Usando do Esquema Quinário, você notará grandes mudanças na sua história. Ela é muito conhecida por seus contrastes no início e no fim. Um arco que se encaixa na Estrutura é a Saga de Alabasta em One Piece.

  • Luffy e sua tripulação chegam a Alabasta e são apresentados aos novos personagens e vilões (estado inicial).

  • Uma série de acontecimentos conectam a narrativa e contam aos leitores para onde a história se encaminha (complicação).

  • Luffy entra em conflito direto com o antagonista e é derrotado (dinâmica).

  • Luffy entra novamente em confronto com Crocodile e desta vez consegue sair vitorioso (resolução).

  • Os personagens são mostrados e há o contraste da chuva chegando ao país anteriormente assolado por uma seca severa. Todos estão bem, mas ainda há problemas a resolver e aventuras para continuar. Eles se despedem e partem. (estado final).

 

E essas foram as estruturas narrativas em que você pode se basear para construir a sua história.


Agradecemos às nossas queridas Madrinhas e o nossos queridos Padrinhos pelo apoio à comunidade e por tornar possível mais esse Artigo+ como um presente a todos!

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1 Comment


Marin P.
Marin P.
Jun 16, 2023

Brabo d+

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