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Como Mostrar, Não Contar. O Guia De Escrita Completo.

Atualizado: 11 de jul. de 2023

A menina estava com medo do ambiente hostil, seu coração batia forte a cada barulho assustador. Mas de repente, seu medo desapareceu. Ela tocou o chão, que parecia seu novo guardião.

Afinal, o que tem de errado com essa narrativa?


Bem, na realidade, esta passagem não nos dá a visão da cena muito bem. Não te faz sentir nada…


Mas era para você sentir algo?


Esse é o problema central com a escrita daqueles que contam mais.


O texto diz que a garota está com medo, que os ruídos são assustadores e que este lugar parece um guardião.


No entanto, não há muitas evidências para apoiar essas afirmações.


Afinal, por qual motivo ela está com medo? Como assim os ruídos são assustadores? E essa história de guardião?


Caso ainda esteja em dúvida sobre o que é isso e porque é tão importante, continue lendo e você vai ver a tremenda diferença que isso pode fazer na sua obra.


Qual a diferença?

 

“Mostre, não conte” é uma frase que você provavelmente ouviu com frequência em alguns grupos de escritores ou até criadores no geral.


Mas qual a diferença entre Mostrar e Contar?


Para mim, a frase que capta melhor a distinção das duas coisas é Weiland:

“Mostrar dramatiza. Contar resume.” — KM Weiland.


Bem simples, não acha?


Lembrando que não é porque aquilo está contando e não mostrando que você deva apagar. Isso na realidade é bastante prejudicial.


"Mostre, não conte" não é uma regra. Todos os romances são uma mistura de contar e mostrar.


Por conta disso, é bem difícil identificar na sua narração esses defeitos, isto é, quando você deveria mostrar ao invés de contar e quando você deveria contar ao invés de mostrar.


Você nem sempre precisa “mostrar” em vez de contar.


Se fosse esse o caso, todas as histórias seriam ridiculamente longas e cheias de descrições desnecessárias. (Tolkien quem diga, ele tinha canções a cada parágrafo!)


Assim como mostrar tem sua função, que comentaremos a respeito mais à frente, contar também tem suas funções.


Contar é útil para:

  • Narrar rapidamente uma passagem;

  • Apresentar fatos importantes ao leitor sem aprofundar o assunto.


Dê uma olhada na abertura do romance infantil O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett:

Quando Mary Lennox foi enviada para morar com seu tio, todos disseram que ela era a criança de aparência mais desagradável já vista. Isso era verdade. Ela tinha um rostinho magro e um corpo pequeno, cabelo fino e claro e uma expressão azeda. Seu cabelo era amarelo e seu rosto era amarelo porque ela nascera na Índia e sempre estava doente de uma forma ou de outra.

Recebemos informações sobre Mary ser uma criança de aparência desagradável que sempre esteve doente.


Essa afirmação é imediatamente apoiada pela prova visual de seu rosto e cabelo finos, junto com sua expressão azeda.


Você deve fazer o leitor visualizar a cena e experimentar as emoções, em vez de apenas dizer como deve sentir.


Se alguém sinaliza que sua escrita é muito “contada”, isso provavelmente significa uma das duas coisas:

  • Você precisa fornecer mais detalhes;

  • Você precisa de uma narrativa forte para fazer o leitor sentir algo.


Não dê o resultado, mostre a fórmula.

 

Em “As pistas para uma grande história”, o escritor e diretor da Pixar, Andrew Stanton, propõe a teoria de 2+2.

Faça o público juntar as coisas. Não dê a eles quatro, dê a eles dois mais dois.

A abertura de Wall-E depende inteiramente de mostrar ao público a fórmula sem dar a resposta, e ele descreve por que essa abordagem funciona:

Contar histórias sem diálogo é a forma mais pura de narrativa cinematográfica. É a abordagem mais abrangente que você pode adotar.

Isso confirmou algo que eu realmente tinha um palpite: é que o público quer trabalhar para sua refeição.


Esse é o seu trabalho como contador de histórias: esconder o fato de que você está fazendo eles trabalharem para (entender).


Nascemos solucionadores de problemas.


Somos obrigados a deduzir e a deduzir, porque é isso que fazemos na vida real. É essa ausência bem organizada de informações que nos atrai.


Há uma razão pela qual todos nos sentimos atraídos por um bebê ou cachorrinho.

Não é só que eles sejam lindos; é porque eles não podem expressar completamente o que estão pensando e quais são suas intenções.


E é como um ímã.


Não podemos deixar de querer completar a frase e preenchê-la.


Talvez você pense que cinema não tem nada a ver com literatura, mas esse princípio é verdadeiro para outros modos não visuais de contar histórias.


A chave para fazer seu público mergulhar na ficção é sugerir o que você quer dizer, em vez de apenas dizer.


Os leitores adoram o processo de descoberta e resolução de quebra-cabeças.

Antes de mergulharmos em algumas estratégias práticas, quero lhe mostrar um pouco das origens do "mostre, não conte”, assim você vai ter uma ideia muito melhor de como implementar.


Para que serve "Mostre, não conte".

 

Paul Dawson, escritor de Escrita Criativa e a Nova Humanidade (2004) descreve como o romance se transformou ao longo dos séculos XIX e XX com a ascensão do realismo como movimento literário.


Calma, isso aqui não é bem uma aula de história… prometo que você vai gostar.


O realismo focava em contar histórias de pessoas comuns com total honestidade, em vez de dramatizá-las, como fazia o romance.


Preste bastante atenção nessa observação de Dawson:


A trajetória do romance é o desenvolvimento de técnicas para personalizar o narrador, para apagar a presença do autor implícito e dramatizar toda ação máxima possível.

Conseguiu entender?


Deixa que eu explico.


Basicamente, a intenção do conselho "mostre, não conte" é transformar o autor em um narrador invisível e evitar quebrar a imersão do leitor na história.


Sabe quando você sabe que aquela frase é do autor falando direto para o leitor? Então…


Em um guia de redação de 2016 de Janice Hardy chamado Entendendo Mostre, Não Conte, tem uma regra:


Contanto que pareça que o personagem está pensando aquilo, você geralmente está indo bem. Mas assim que parecer que o autor está se intrometendo para explicar as coisas, você provavelmente começou a contar.

Em poucas palavras… Parece que seu personagem está pensando mesmo isso? Ótimo, você está mostrando.

Parece que você (o autor) está se metendo para dar uma de Deus e explicar as coisas? Olha, você está contando.


Lembrando novamente que, não é regra sempre mostrar. Como dito anteriormente isso torna a narrativa pesada, cansativa e dramática demais.


Porém, se você deseja que os leitores experimentem as emoções da sua história em um nível instintivo, sentindo de maneira intuitiva, você precisa saber quando mostrar.


Sabendo quando mostrar.

 

Então, a pergunta de um milhão de dólares: Quando eu sei, especificamente, qual é a hora de mostrar?


De uma maneira geral, é bem mais interessante você mostrar do que contar os momentos que envolvem:


  • Emoções;

  • Opiniões;

  • Sensações.


Emoções

 

Emoções está claro, é muito melhor fazer o leitor/espectador sentir o que o outro está sentindo por meio da empatia.


Exemplo de anime:

O anime a voz do silêncio mostra bastante como são confusas as emoções dos personagens. Mas de modo algum deixamos de senti-las ou nos identificarmos. Por pequenos jeitos e trejeitos, você vai descobrindo como eles se sentem. Por qual motivo fazem o que fazem. Eles não expressam suas emoções falando, mas sim por meio de suas atitudes. Mostrando.


Opiniões

 

Opiniões podem ser tão polêmicas quanto mamilos, mas não devem ser difíceis de entender. Você pode não concordar com a opinião de alguém, mas quando você as ouve e as entende, sua mente muda, e agora aquela pessoa não é apenas um idiota, mas sim um idiota que tem um ponto.


Exemplo de anime:

Outro anime que faz isso bem é o polêmico: Eren de Shingeki no Kyojin. Por mais que você não concorde com as atitudes do Eren, você entende o porquê ele toma essas atitudes.


Exemplo de livro/novel:

1984.

Se você leu sabe que é um clássico. A crítica do filme é falar/opinar sobre como o nosso sistema de governo pode ser opressivo, mas ele cumpre esse papel da melhor maneira. Ao invés de simplesmente ser uma crítica falada, é mostrada. Um cotidiano de um mundo politicamente errado. Mas o mais interessante é que o autor nunca sai das páginas e lhe diz por meio de exposição que aquilo está errado, é você quem trabalha para perceber isso. Embora não seja muito difícil.


Sensações

 

Sensações podem ser transmitidas de muitas formas, desde a reação do personagem com algum cheiro, quanto sua confusão por não conseguir entender o que está a sua frente.


Exemplo de anime:

Vinland Saga. Um dos melhores mangás que já li, sem dúvidas. É lógico que você pode discordar, mas a sensação que o final da última temporada me passa com a frase do Askeland para o Thorfinn, é de cair o queixo.

Thorfinn sacrifica sua juventude inteira atrás de vingança contra o homem que matou seu pai covardemente, Askeland.

Cegado por seu ódio, ele não tem visão para nada mais além de sua sonhada vingança.

E quando Askeland está prestes a morrer, ele pergunta ao Thorfinn:

“Depois que eu morrer, como você pretende viver a vida?”

Me arrepio até hoje. Uma bela construção de cena.


Exemplo de livro/novel:

Em quesito literário, não poderia deixar passar os gênios do terror, Edgar Allan Poe e H.P Lovecraft, que conseguem passar as piores sensações por meio de seus contos.

Allan Poe mexe muito com a sensação de "algo está errado" usando a morte e misturando com o macabro. Não em um sentido demoníaco, mas é uma esquisitice arrepiante que vem da coisa mais natural que nos acontece: a morte.

Já Lovecraft, é aquele medo de ser insignificante perante o universo, o medo de sua vida não ser nada comparado a incompreensível extensão que existe lá fora. É uma sensação de melancolia e loucura. O medo daquilo que não enxergamos. O medo do escuro.


Estes foram os três principais pontos para ficar de olho enquanto estiver escrevendo.


Vamos utilizar estas três situações mais à frente.


Agora vamos para os seis princípios que vão fazer você "mostrar, não contar" da melhor maneira e de forma definitiva.


Acredite em mim, depois disso você vai descobrir por que seus textos não estão fluindo bem.


1 - Use Evidências para Apoiar Suas Afirmações.

 

Imaginemos que o protagonista acredita que seu melhor amigo é culpado de um assassinato.


A pergunta é: o que o levou a essa conclusão?


Dê ao leitor as mesmas evidências que o personagem está usando quando se trata de suposições ou opiniões.


O autor Chuck Palahniuk aconselha a proibição de verbos de "pensamento" como: "pensar", "saber", "entender", "perceber", "acreditar", "desejar", "lembrar" e "imaginar".


Um pouco extremista, não acha?


Ele fala sobre “desempacotar” cenas para que o leitor sinta e pense o que os personagens estão sentindo e pensando.


Vou explicar o que ele quer dizer com um exemplo.


Ao invés de dizer: “Diego sabia que Nathalia gostava dele”.


Você pode dizer isso:


Entre as aulas, Nathalia sempre se encostava no armário de Diego quando ele ia abri-lo. Quando se aproximava, ela mexia as sobrancelhas, balançando os cabelos, e saía dali deixando o cheiro de seu doce perfume. O armário ainda estava quente por conta de seu toque. E no próximo intervalo, Nathalia estava encostada no armário de Diego, novamente.

Você pode atrair os leitores para a história apresentando evidências — seja um detalhe visual ou um pedaço de diálogo — e permitindo que eles tirem suas próprias conclusões sobre a impressão que você está tentando criar.


Em vez de um personagem querendo algo, você deve agora descrever a coisa para que o leitor também queira.

— Palahniuk


2 - Substitua o Abstrato pelo Concreto

 

Em particular, tome cuidado ao declarar diretamente os sentimentos de um personagem.


O blog “Novel Writing Help” de Harvey Chapman dá um ótimo exemplo de contar e mostrar.


Contando: “Depois de seu primeiro beijo com Samantha, Toby voltou para casa sentindo-se mais feliz do que jamais se sentiria em todos os seus treze anos.

Mostrando: “Depois do primeiro beijo com Samantha, Toby não conseguiu tirar o sorriso bobo do rosto durante todo o caminho para casa. Quando ele chegou ao pequeno portão da frente, ele pulou por cima, sem nem chegar perto de tropeçar.


Chapman explica por que as mudanças funcionam: “A felicidade é um conceito abstrato e precisa ser demonstrada (mostrada, não contada) com detalhes concretos, como o sorriso largo e o pulo do portão.


Portanto, muitas vezes você pode substituir as emoções por ações que permitem ao leitor decifrar a emoção.


Também tenha cuidado com as descrições que usam adjetivos relacionados com a opinião, como "bonito" ou "estranho".


Em um primeiro rascunho, posso escrever:


A floresta escura parecia estranha.


Ok, talvez até pareça estranho para o personagem, mas o leitor precisa sentir isso também.


Preciso convencer o leitor de que aquela floresta é assustadora e ele também acharia isso:


A floresta zumbia com os gritos de crianças mortas há muito tempo.


Isso é melhor. Bem assustador.


Substitua os rótulos dos adjetivos por detalhes que permitam ao leitor interpretar a atmosfera por conta própria.

2+2, lembra?

Um truque para identificar quando você está em um território “abstrato” é fazer uma pergunta que Jeff Gerke faz em seu livro As Primeiras 50 páginas.

A “câmera” consegue ver?


Quase todos os exemplos de “exibição” contêm um detalhe que pode ser visualizado, que você pode combinar com cheiro, toque, sabor e som.

O autor Jerry Jenkins fornece ótimos exemplos de substituição de abstratas por ações concretas.


Está com frio?

Ele pode puxar a gola da camisa para cima; proteger o nariz com um lenço; enfiar as mãos nos bolsos; virar o rosto para longe do vento cortante. Está cansado?

Ele pode bocejar, gemer, se esticar. Seus olhos podem parecer inchados. Seus ombros podem cair.

Outro personagem pode até dizer: “Você não dormiu noite passada? Você parece baleado.”


Outra maneira de pensar sobre essa ideia de “câmera” é considerar o efeito e não a causa de um determinado detalhe.


Dê uma olhada nestes exemplos adicionais de Jerry Jenkins:


Contando: A temperatura caiu e o gelo refletiu o sol.

Mostrando: o nariz de Bill queimou no ar frio e ele apertou os olhos contra o sol refletido na rua.

Contando: Suzie era cega. Mostrando: Suzie apalpou o banco com uma bengala branca. Contando: era final do outono. Mostrando: folhas esmagadas sob seus pés.


No primeiro exemplo, a temperatura fria é a causa de um efeito específico no personagem: o nariz de Bill queimando com o ar gelado.


Em vez de serem declarados diretamente, os detalhes são mostrados através de como o personagem interage com o mundo ao seu redor - como folhas esmagando sob seus pés - o que torna a cena mais visual.


3 - Substitua Descrições Vagas Por Detalhes Sensoriais Específicos.

 

Acima de tudo, mostrar depende da especificidade.


Os detalhes sensoriais únicos fazem com que os sentimentos e as cenas saltem das páginas.


A autora Delilah Dawson fala sobre como invocar os sentidos para fazer a construção do mundo parecer tridimensional.


No primeiro rascunho de uma frase, ela escreve: “Agatha caminhou pelo mercado, olhando boquiaberta para os tapetes e caixas de especiarias”.


Agora, ela poderia ter dito: “Agatha ficou maravilhada com todas as paisagens maravilhosas do mercado”, mas em vez de usar conceitos abstratos como “maravilhada” ou “maravilhosa”, ela inclui a ação concreta de Agatha olhando para os tapetes e caixas de especiarias.


Mas embora isso crie uma imagem mental, não é muito específico e não invoca nenhum sentido além da vista.


Em seu segundo rascunho, Dawson escreve: “Agatha caminhou pelo mercado como se fosse um sonho. Canela picante e café rico pairavam no ar enquanto ela corria os dedos pelas borlas de seda e pelos barris de açafrão dourado.


Adicionar detalhes torna esta descrição muito mais envolvente.


Ao mostrar os detalhes, tente ir além do óbvio e do esperado.


Por exemplo, uma cena de funeral geralmente mostra todos vestindo preto quando começa a chover, o personagem principal em pé com um guarda-chuva em frente ao túmulo de sua mãe.


E se você mostrasse detalhes que se contrastam com a atmosfera sombria?

Se uma cena emocional parecer muito clichê, tente mudar o cenário ou a maneira como os personagens descrevem suas emoções, como a autora Gail Carson Levine recomenda:


E se, em vez de um dia comum, for dia de Natal, no sul do Texas? Cai a garoa, olá, ar seco. E se a lápide tiver algo escrito que não faz sentido para ninguém, mas foi solicitado por sua mãe moribunda para ser gravado em sua lápide? Talvez o amigo pergunte ao MC o que isso significa. Talvez eles tirem suas mentes da tristeza tentando descobrir o ditado estranho. A cena emocional não é mais cafona, porque é diferente.


4 - Evite Confiar Demais na Linguagem Corporal.

 

Muitos conselhos sobre redação sugerem o uso da linguagem corporal para sugerir as emoções de um personagem.


Braços cruzados podem mostrar que alguém está chateado, enquanto tocar os dedos pode indicar impaciência.


Esses detalhes físicos podem ser um bom atalho emocional. No entanto, é fácil confiar demais na linguagem corporal para a sua exibição.


No seu dia a dia, com que frequência você vê alguém cerrar os punhos ou cerrar os dentes quando está com raiva? Quantas vezes você mesmo já fez isso quando está com raiva?


Expressões faciais e gestos comuns são ótimos para transmitir rapidamente o humor de um personagem, mas raramente evocam uma resposta emocional no leitor.


Em um artigo de Robin Patchen, ela descreve como os escritores podem mostrar emoções através de ações e pensamentos, em vez de apenas sensações corporais.

Como ela diz, “ter um personagem cerrando os punhos pode nos mostrar que ele está com raiva, mas não nos mostra o ímpeto para essa raiva. Ele está se sentindo frustrado, desprezado ou com ciúme?"


Ela também dá um exemplo incrível de contar e mostrar. A primeira versão depende muito da linguagem corporal:

Mary abriu os olhos e olhou para o relógio. Seu coração quase saltou do peito. O bebê dormiu quase oito horas. Mas a pequena Jane nunca dormia mais de quatro horas seguidas. Deve haver algo errado. De novo não. Seu estômago embrulhou quando ela se lembrou da última vez que um filho dela dormiu muito tempo.

À primeira vista, parece que a história está “mostrando” as emoções do personagem porque seu coração e estômago estão reagindo.


Mas essa mesma falta de sutileza faz as descrições parecerem forçadas e melodramáticas.


A segunda versão de Patchen dessa cena se afasta das reações viscerais e se concentra no processo de pensamento individual do personagem:

Mary abriu os olhos e os apertou sob a luz do sol que entrava pela janela aberta. Ela se espreguiçou, sentindo-se mais relaxada desde... Ela se sentou e olhou para o relógio. Já passava das oito. A pequena Jane dormiu a noite toda. Pela primeira vez. Assim como Billy. Mary puxou as cobertas e se levantou. Ela pegou seu robe nas costas da cadeira e o vestiu. Ela não pensaria em Billy. O médico disse que não voltaria a acontecer. As chances contra isso eram astronômicas. Billy tinha quase seis semanas de idade. Jane estava com quase dois meses. Era diferente dessa vez. Tinha que ser.

Que diferença, não é?


O segundo exemplo parece mais "no momento".


Dar um relato em tempo real do processo de pensamento do personagem e suas interações com o cenário pode mostrar “nuances” emocionais melhor do que a linguagem corporal.


Patchen também usa verbos fortes para transmitir uma sensação de pânico e urgência, com as reticências (...) que indicam que seus pensamentos estão desaparecendo.


A escolha de palavras e a estrutura das frases podem ser uma forma de exibição.

Robin Patchen termina com esta bela pepita de sabedoria:

Os filósofos nos dizem que os pensamentos levam às emoções e as emoções levam às ações. Como escritor, você pode mostrar facilmente os pensamentos e ações de seu personagem. Os leitores são espertos o suficiente para deduzir as emoções com base no que os personagens pensam e fazem. Muitas vezes parece que os escritores estão com pressa. Quando você tem uma cena muito emocional, diminua o ritmo. Deixe-nos ouvir cada pensamento do seu personagem. Destaque alguns detalhes. Mostre as ações.

Se precisar de ajuda para pensar em como os sentimentos podem se manifestar, confira The Emotion Thesaurus, de Angela Ackerman e Becca Puglisi, que lista uma variedade de maneiras pelas quais você pode transmitir diferentes emoções, da angústia ao desejo de viajar.


5 - Mostre Emoção Através de Diálogo.

 

O diálogo é uma ferramenta poderosa para mostrar os sentimentos ou personalidade de um personagem para o leitor.


Em vez de dizer:


"Maria estava com raiva de Carlos."


Você poderia fazer com que Maria gritasse com Carlos:


“Seu fazendeiro idiota, comedor de capim, sujo de estrume!"


Esse também é o motivo de muitos escritores alertarem sobre o uso de advérbios.


Advérbios costumam enfraquecer o diálogo porque falam ao invés de mostrar.


No diálogo acima, podemos distinguir o tom de Maria apenas pelas palavras, sem falar no volume, já que ela está gritando.


Não preciso escrever, “gritou com raiva” porque a palavra “com raiva” está dizendo ao leitor informações que já mostramos.


Da mesma forma, alguns escritores se sentem tentados a “telegrafar” as intenções de um personagem em uma conversa, embora o diálogo já mostre essa informação:


"Por favor, apenas ouça o que tenho a dizer." ele disse, tentando ser diplomático. “Bem, isso não importa,” ela disse, mudando de assunto. “Vamos passar para outra coisa.”

Nessa troca, o autor está dizendo ao leitor quais conclusões tirar, quando na verdade, o autor deveria confiar que seus leitores são inteligentes o suficiente para descobrir por conta própria.

Uma versão revisada pode incluir mais recursos visuais e uma etiqueta de diálogo que transmite um tom específico:

Ele beliscou a ponta do nariz. "Por favor, apenas ouça o que tenho a dizer." “Bem, isso não importa,” ela sussurrou. “Vamos passar para outra coisa.”

Ao escrever um diálogo altamente emocional, pode ser útil no primeiro rascunho fingir que você está escrevendo uma peça ou roteiro, já que isso te força a se concentrar em transmitir emoções apenas por meio do diálogo.


Oscar Wilde é conhecido por seus diálogos rápidos, especialmente em sua peça The Importance of Being Earnest.


Na cena de abertura, um jovem cavalheiro chamado Algernon visita seu melhor amigo Jack, que veio propor casamento à prima de Algernon.


O diálogo carrega as emoções da cena:

“ALGERNON: Você se comporta como se já fosse casado com ela. Você ainda não é casado com ela, e acho que nunca será. JACK: Por que diabos você diz isso? ALGERNON: Bem, em primeiro lugar, as meninas nunca se casam com os homens com quem flertam. As meninas não acham isso certo. JACK: Oh, isso é um absurdo! ALGERNON: Não é. É uma grande verdade. É responsável pelo número extraordinário de solteiros que se vê por todo lado. E em segundo lugar, não lhe dou o meu consentimento. JACK: Seu consentimento!?”

Apenas com base no tom de suas palavras, o leitor pode supor o que os personagens estão sentindo, mesmo que o público não seja informado dessa informação diretamente.


6 - Filtre As Observações Por Meio da Voz Narrativa.

 

Mostre, não conte” muitas vezes significa ir mais fundo no ponto de vista da narrativa, quer você esteja filtrando:

  • a história pelas lentes de um personagem ou;

  • de um narrador mais distante.

Trata-se de dar detalhes que permitam ao leitor se sentir mais conectado ao ponto de vista do personagem por meio do que está vivenciando.


Essa proximidade pode ser alcançada por meio da formulação de afirmações diretas de uma maneira única.


Um usuário do Reddit compartilha alguns ótimos exemplos de contar vs. mostrar:


"Ele era um homem rude e sem consideração."


Isso é revelador.


Sabemos que o personagem é rude e sem consideração porque o escritor nos contou.


Agora...


"Saia do meu caminho, sua idiota!" ele gritou para a mulher que lutava para colocar o carrinho no ônibus.


Isso está sendo mostrado. Ou seja, podemos deduzir que o personagem é rude e imprudente com base na situação que acabamos de ler.


Contando: ela se sentia desconfortável perto dele. Mostrando: ela endureceu em seu abraço. Contando: a casa era enorme. Mostrando: toda sua família poderia morar sozinha na cozinha. Dizendo: ela estava com fome. Mostrando: ela quase inalou a sopa.


Em todos esses exemplos, aprendemos as mesmas informações por meio do “mostrar”, mas com mais sabor e caráter.


Você notará que todos esses exemplos envolvem a substituição de “era” por um verbo mais interessante, assim como nos exemplos anteriores.


Visto que “era” e sua palavra prima “senti”, são frequentemente seguidos por um adjetivo, pode ser um indício de onde um verbo mais forte poderia ser usado para criar uma imagem concreta na cabeça do leitor.


Você pode imaginar uma mulher enrijecendo no abraço de um homem, ou uma cozinha grande o suficiente para uma família morar, ou alguém tomando sopa.

Isso se estende à construção de mundos, história de fundo e informações em geral.


Às vezes, os autores apresentam informações como uma definição de dicionário, em vez de uma referência interna que se encaixa naturalmente na história.


Como observa Janice Hardy:

Um teste fácil é verificar se a informação é para o leitor ou o personagem. Se for para o leitor, é provável que você esteja se metendo na história para contar.

A chave é filtrar a construção ou exposição das informações pelo ponto de vista do personagem.


Hardy compara diferentes maneiras de mostrar a mesma cena com base no personagem:


Carlos como uma pessoa normal: “A chuva derramou a janela do restaurante. Carlos estava sentado à mesa, uma pilha de panquecas ao lado dele. Ele olhou para um envelope em suas mãos, enquanto acima dele, na parede, um relógio tiquetaqueava.”

Carlos como um soldado: “A chuva batia contra a janela do restaurante como tiros de uma Uzi. Carlos estava sentado à mesa, encostado na parede, uma pilha de panquecas não comidas ao lado dele. Ele agarrou o envelope com mais força a cada tique do relógio acima dele. Novas ordens. Ótimo.”

Carla como uma menina assustada: “A chuva cobriu a janela e turvou o mundo exterior. Carla se curvou à mesa, a cabeça um pouco mais alta do que a pilha de panquecas ao lado dela. O envelope estava em seu colo. Ela não queria tocá-lo, muito menos abri-lo. Ela olhou para o relógio e suspirou. O tempo está acabando.”


Deixe as emoções de seus personagens colorirem a maneira como eles veem o mundo ao redor.


O mesmo vale para o diálogo que parece uma informação dada diretamente para o leitor, em vez de algo que o personagem diria de forma realista.


Isso leva a situações do personagem explicando algo que outro personagem já sabe.

Richard: Não, você sabe que hoje estamos indo para a terra dos Gigantes para oferecer a eles a Joia de Valência em troca de nos juntarmos à nossa missão para salvar a Princesa Isabella? Galavant: Sim, discutimos isso ontem à noite em detalhes.

Não há necessidade de sua exposição desajeitada.


Nessas situações, o diálogo não é expresso na voz do personagem; é o autor falando; o que tira o leitor da história.


Lembre-se de que os personagens têm conhecimento prévio e experiência que existe fora da narrativa.


Mostrar no diálogo geralmente significa incluir menos detalhes, como neste exemplo de Janice Hardy:


O autor falando com o leitor: “Vou montar um pequeno dispositivo explosivo para explodir a porta. Foi assim que fiz quando fui mandado para o Afeganistão pela marinha.” Os personagens interagindo: “Hum, Kevin, onde você aprendeu a fazer bombas?” "A Marinha."

O verdadeiro propósito por trás do conselho “mostre, não conte” não é afirmar que tudo que “conta” é ruim.


Muitas vezes, contar é necessário para unir diferentes cenas, e a quantidade de "contar" na narrativa pode depender do gênero.


Contar e mostrar são ferramentas para controlar o ritmo. Eles ajudam você a focar e mergulhar o leitor em momentos importantes, e ultrapassar outros rapidamente. O que você deseja que o leitor lembre? Identifique o que seu leitor ideal deseja. Eles querem uma viagem sinuosa envolvente e exuberante? Ou um thriller à velocidade da luz?

— Stewie Writes


Às vezes os leitores querem ouvir como se estivéssemos ouvindo um contador de histórias oral contar uma boa história.


Eu em particular gosto de ler narrações assim, mas tem pessoas que já não são muito fã.

Eu quero uma voz narrativa forte varrendo o palco em um grande monólogo que explica o mundo inteiro para mim como se eu tivesse cinco anos. Quero a clareza condescendente de um conto de fadas ou um mito. Quero uma voz monótona do sul se aproximando e dizendo que o que aconteceu foi...

— Harrow


Em particular, eu defendo especificamente as frases iniciais da ficção científica de Micaiah Johnson, The Space Between Worlds, como um exemplo de uma obra que transforma a exposição em algo marcante e atraente, com narrativa de tensão.


As páginas iniciais usam uma forte voz de primeira pessoa para atrair o leitor:

Quando eu era jovem e o multiverso era apenas uma teoria, eu não valia nada [...], Mas Adam Bosch, nosso novo Einstein e fundador do instituto que me paga, descobriu uma maneira de ver outros universos. Claro, a humanidade não poderia apenas olhar. Tivemos que entrar. Tínhamos que tocar, provar e tomar. Mas o universo disse não.

Contar é parte do que diferencia os romances e contos de filmes e programas de TV.


Os escritores de ficção podem reprimir pensamentos e sentimentos de uma forma que não pode ser totalmente reproduzida por outro meio.


Mostrar pretende forçar os escritores a se esforçarem mais com sua prosa e a pensar em detalhes específicos que dão vida aos personagens e ao mundo.

Dito isso, a frase deve ser alterada para "mostre, não basta contar".


Conclusão

 

Como uma ficha rápida, aqui estão alguns lugares onde você pode considerar contar ou combinar contar e mostrar:

  • Momentos sem importância para a narrativa maior (como um personagem foi do Ponto A ao Ponto B).

  • Resumos de rotinas, passagem do tempo ou conversas repetitivas.

  • Alguns aspectos de sistemas mágicos ou construção de mundos de ficção científica

  • Pensamentos dos personagens

  • História de fundo ocasional e exposição (Isso geralmente é apresentado como uma ampla varredura que conta emparelhada com detalhes específicos que mostram, como no exemplo de O Jardim Secreto.)

E aqui estão os lugares em que você geralmente mostra melhor:

  • Emoções Particularmente os sentimentos do personagem principal e suposições sobre como os outros personagens estão se sentindo.

  • Sensações Incluí visão, som, olfato, paladar e tato.

  • Pensamentos Palavras como “percebi”, “pensei” e “soube” podem significar isso, mas não sinta que precisa evitar totalmente essas palavras. Apenas se certifique de que não haja uma maneira mais interessante formular isso usando evidências concretas.

  • Evidências Atributos ou adjetivos relacionados à opinião ou especialmente em relação a como um lugar ou situação faz o personagem se sentir. Se você fizer uma afirmação como “Ele era inteligente”, comprove com evidências.

  • Frase simples Tome cuidado com isso. Isso pode incluir o uso excessivo de palavras ou uma abundância de verbos "ser" como "era".

Mostrar significa eliminar o autor como intermediário e deixar o leitor viver a história em primeira mão. Você pode mostrar através de especificidade, ação, diálogo, detalhes sensoriais, pensamento interno e voz narrativa.


Seu primeiro rascunho frequentemente conterá mais revelação do que exibição.

Durante as revisões, você pode percorrer e destacar as partes que precisam de mais sabor.


Procure pontos onde as emoções ou descrições pareçam vagas e os substitua com detalhes sensoriais específicos e vocabulário vívido.


Se você quiser aprender mais sobre contar vs. mostrar, recomendo fortemente que continue acompanhando nosso blog. (aqui outros artigos).


Como um exercício de escrita, encontre um pequeno parágrafo ou cena de um de seus livros favoritos e substitua tudo o que estiver sendo contado por mostrado.


Lembra da passagem que compartilhei no início deste artigo?


Na verdade, é de um romance — exceto que o reescrevi mal.


Aqui está o texto original, que é um exemplo admirável de mostrar as emoções de um personagem através de suas ações e uma voz narrativa única.


É de Delila Owens:

Às vezes ela ouvia sons noturnos que não conhecia e pulava por conta de trovões que pareciam passar muito perto, mas sempre que ela tropeçava e caía, era a terra que a segurava. Até que finalmente, em algum momento, a dor no seu coração se dissipou como água na areia. Ainda está lá, mas profundo. Kya colocou a mão sobre a respiração, a terra úmida, e o pântano se tornou sua mãe.”

Você luta para mostrar em vez de contar?


Compartilhe seus pensamentos comigo nos comentários.


Enfim, continue escrevendo!

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1 comentario


Invitado
16 abr

Esse artigo me ajudou a ver minhas histórias de outra forma. Muito bom.

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