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Escrevendo na Terceira Pessoa Limitada: Dicas e Exemplos

Artigo foi escrito originalmente por Jordan do site Nownovel

O ponto de vista — em inglês, point of vision ou só POV — da terceira pessoa limitada é um dos mais comuns na ficção moderna. O que é a terceira pessoa limitada? Como podemos usá-la de forma efetiva? Além de responder essas perguntas, daremos dicas e exemplo de autores que utilizam esse POV.

O que é o POV de Terceira Pessoa Limitada?

 

Uma narração em terceira pessoa usa, entre outros, pronomes como Ele, Ela ou Eles. Neste tipo, o narrador é um “observador que não participa dos eventos representados”. Em outras palavras, o narrador está ali para observar e comentar sobre os principais eventos da história.

Terceira pessoa limitada é diferente da terceira pessoa onisciente, pois o narrador é um participante ativo. Embora os pronomes sejam iguais ao do POV onisciente, o limitado só sabe aquilo que um personagem ou grupo — do ponto de vista do narrador — sabe. Ou, como Ursula K. Le Guin coloca em seu guia de escrita Steering the Craft, em terceira pessoa limitada:

Apenas aquilo que o personagem, do seu próprio ponto de vista, sabe, sente, percebe, pensa, supõe, espera, se lembra, e etc., pode ser dito. O leitor pode deduzir o que as outras pessoas sentem e pensam a partir da perspectiva de um personagem.

Então… Como exatamente podemos usar esse POV corretamente?

Como usar a Terceira Pessoa Limitada

 
  • 1: Use o tom da narração para mostrar os sentimentos;

  • 2: Mostre o mistério de um ponto de vista limitado;

  • 3: Mostre as suposições equivocadas dos personagens;

  • 4: Contraste diferentes pontos de vista limitados para mostrar experiências diferentes.

1. Use o tom da narração para mostrar os sentimentos

 

O POV de terceira pessoa limitada é ótimo para mostrar como outras ações impactam na perspectiva do personagem. Isso porque você só pode mostrar o que o POV do personagem sabe ou supõe, enquanto as ações de outros personagens ficam em mistério.

Na terceira pessoa limitada, nossas suposições a respeito dos pensamentos e motivações pessoais de outros personagens se tornam tão boas quanto a capacidade do próprio personagem narrador de observar, descrever e interpretar.

Exemplo de tom efetivo na Terceira Pessoa Limitada:

Por exemplo, J.K. Rowling usa narração limitada em terceira pessoa na série Harry Potter, ela mostra como os maus-tratos habituais por parte de sua tia e tio deixam Harry com baixas expectativas de ocasiões que esperaríamos ser felizes:

Os Dursley nem sequer se lembraram que hoje, por acaso, era o décimo segundo aniversário de Harry. Naturalmente ele não alimentava grandes esperanças; seus parentes jamais tinham lhe dado um presente de verdade, muito menos um bolo — mas esquecê-lo completamente...

Harry não nos fala diretamente quais são seus sentimentos: É o tom da terceira pessoa limitada que faz isso. É claramente construído pela própria experiência de Harry. As palavras “Naturalmente” e “mas esquecê-lo completamente” poderia ser a própria voz de Harry, seus pensamentos em itálico.

Use uma linguagem emotiva na narração em terceira pessoa de forma semelhante para fazer sua narração mostrar os sentimentos dos narradores.

2. Mostre o mistério de um ponto de vista limitado

 

Terceira pessoa limitada é bastante popular em romances — novels — de mistério, isso porque quando nós não sabemos o que um personagem secundário está pensando e sentindo explicitamente, ele permanece como um intrigante mistério.

Mostrando os pensamentos e sentimentos desconhecidos de outros personagens na terceira pessoa limitada:

Nós poderíamos, por exemplo, ter uma cena onde o investigador encontra um possível suspeito de assassinato:

Inspetor Garrard assistiu o homem atrás do balcão servindo um cliente. Seus movimentos eram rápidos, quase agitados. Quando se aproximou, viu os olhos do homem pousarem em seu peito, como se procurasse um distintivo revelador. Ou ele estava imaginando coisas, o homem havia abaixado os olhos por timidez?

Como podemos ver, nós apenas sabemos aquilo que o detetive vê e supõe. Nós o vemos analisando a linguagem corporal das pessoas e dando significados para isso. Pelo fato dele estar procurando por um suspeito, mesmo os menores gestos do homem parecem suspeitos.

No entanto a perspectiva do nosso personagem é distorcida, ou melhor, moldada por seu foco atual: pegar um culpado. O homem pode ser totalmente inocente.

A Terceira Pessoa Limitada nos permite sentir a tensão do quão “desconhecida” outro personagem 一 um “não-eu” 一 pode ser, pois nós não conhecemos, com total certeza, os pensamentos e opiniões pessoais desses personagens.


3. Mostre as suposições equivocadas dos personagens

 

Em Orgulho e Preconceito, Austen usa a terceira pessoa limitada para descrever as primeiras impressões de Elizabeth Bennet’s do seu eventual interesse amoroso, Sr. Darcy.

Assim como o inspetor do último exemplo assumiu ou imaginou culpa com base em sinais revelados no comportamento de outra pessoa, o seu narrador em terceira pessoa limitada pode assumir o pior — ou melhor — por meio de informações limitadas.

Exemplo de suposição em uma narração limitada:

Em Orgulho e Preconceito, Austen usa a terceira pessoa limitada para descrever as primeiras impressões de Elizabeth Bennet’s do seu eventual interesse amoroso, Sr. Darcy.

Primeiro nós conhecemos Darcy numa dança. Darcy dispensa a ideia de dançar com Lizzie para o amigo. Lizzie ouve:

— Oh, é a mais bela moça que já vi na minha vida, mas bem atrás de você está uma das suas irmãs, que é muito bonita e agradável. Deixe-me pedir ao meu par que o apresente a ela? — Qual? — perguntou ele, voltando-se e detendo um momento a vista em Elizabeth até que, encontrando os seus olhos, desviou os seus e disse, friamente: — É tolerável, mas não tem beleza suficiente para tentar-me. Não estou disposto agora a dar atenção a moças que são desprezadas pelos outros homens. É melhor você voltar ao seu par e se deliciar com os seus sorrisos, pois está perdendo tempo comigo. Mr. Bingley seguiu o conselho. Mr. Darcy se afastou e os sentimentos de Elizabeth para com ele não permaneceram muito cordiais.

Note a linguagem emotiva que Austen utiliza na descrição em terceira pessoa de Darcy. Ele “dispensa” a ideia de dançar com Lizzie e “friamente” se retira. Estas, juntamente com suas falas, nos passam uma ideia de uma fria superioridade... Mas tudo isso é do ponto de vista de Lizzie, moldado pelo insulto percebido em relação ao seu apelo.

Embora para Lizzie, Darcy “retire” seu olhar, ele poderia facilmente ter desviado o olhar por pura timidez. Lizzie interpreta o gesto em conjunto, no entanto com suas palavras aparentemente indiferentes. Isso mostra o quão efetivo a terceira pessoa limitada pode ser em como as pessoas avaliam umas às outras usando as informações limitadas que possuem.

É apenas mais tarde na obra em que vemos a bondade e cordialidade que Darcy é capaz, e reconhecemos seus maneirismos indiferentes como sinais de um personagem sério, apaixonado, mas socialmente estranho.

4. Contraste diferentes pontos de vista limitados para mostrar experiências diferentes

 

Na terceira pessoa limitada, embora o seu narrador ocupe um ponto de vista limitado na cena, mostrando ao leitor apenas o que uma única mente vê, ouve, pensa e assume, você ainda pode alternar entre diferentes POV de seção em seção.

A vantagem desse tipo de abordagem é que você pode mostrar as crenças e suposições de outros personagens à medida que interagem com outras pessoas com consciência parcial e, de outras maneiras, defeituosa.

Exemplo: Contrastando um ponto de vista de terceira pessoa limitada em O Amor nos Tempos do Cólera.

Gabriel Garcia Márquez usa esse potencial da terceira pessoa limitada com excelente efeito em O Amor nos Tempos do Cólera. Esse romance épico nos conta a história de um amor não-correspondido quando dois possíveis amantes se cruzam novamente, mas muito mais tarde na vida.

No início do romance, Florentino Ariza confessa seu amor à obsessão de sua juventude, Fermina Daza. No entanto, em um péssimo momento: no velório de seu marido.

— Fermina — disse — esperei esta ocasião durante mais de meio século, para lhe repetir uma vez mais o juramento de minha fidelidade eterna e meu amor para sempre. Fermina Daza se teria julgado diante de um louco, caso não tivesse tido motivos para pensar que Florentino Ariza estava naquele instante inspirado pela graça do Espírito Santo. Seu impulso imediato foi maldizê-lo pela profanação da casa quando ainda estava quente no túmulo o cadáver de seu esposo.

Vemos os gestos apaixonados de Florentino, mas através do olhar descrente e crítico de Fermina.

No capítulo seguinte, veremos mais da visão dele. Florentino se lembra da primeira vez que viu Fermina:

Ao passar diante do quarto de costura viu pela janela uma mulher mais velha e uma menina, sentadas em duas cadeiras muito juntas, as duas acompanhando a leitura no mesmo livro que a mulher mantinha aberto no colo. [...] a menina levantou a vista para ver quem passava pela janela, e esse olhar casual foi a origem de um cataclismo de amor que meio século depois não tinha terminado ainda.

Ao longo do romance, Márquez alterna entre a perspectiva menos romântica de Fermina e o ponto de vista romântico obstinado e obsessivo de Florentino.

O contraste sobre como eles interpretam seus encontros e os significados que dão a eles, tudo isso cria a forte impressão de dois personagens diferentes com suas próprias peculiaridades, forças e fraquezas.

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