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  • Foto do escritorRose Kethen

Diferenças entre os Gêneros Literários e Ficcionais

Não são poucas vezes que vi, aqui na Novel Brasil, tutorandos e iniciantes no nicho de escrita confundindo esses dois termos que começam com “gênero”. Nessas situações, eu paro e penso: Por que eles focam tanto na primeira palavra e ignoram a segunda?


Há certos desafios que forçam um professor e tutor a ignorar o resultado incorreto da conta e atacar o cálculo, a raiz, para resolver o que causa essa confusão. O comum é sempre trocarem o ficcional pelo literário, ou que só conhecem um e nem fazem ideia de que o outro existe. Então, para isso, que estarei criando esse artigo nada-curtinho para acabar com mais um dos desafios dos tutorandos na Classe F da NB.


Aviso:

 

Esse artigo repetirá muitas vezes o termo principal, invés de usar os variantes, para evitar maiores confusões. Então não estranhem a repetição contínua de “gênero isso” e “gênero aquilo”.

 

Os Gêneros Ficcionais


Vamos, então, começar com o mais tranquilinho, que é o gênero ficcional, mas segura aí, antes de falarmos sobre o que ele é, que tal sabermos o significado ou história por trás de “ficção”?


A ficção é mais antiga que a própria literatura, uma vez que a ficção é tudo o que é imaginário, que foge da própria realidade. Podemos colocar da forma que, desde que o ser humano sentou em volta da fogueira para contar uma história da luta contra um animal imenso nunca antes visto até os efeitos especiais do cinema de hoje em dia, a ficção é esse mundo que só a nossa mente pode alcançar.


Então, sabendo disso, o gênero ficcional, também conhecido por: gênero de ficção, fórmula de ficção e até mesmo ficção popular; é um termo usado no comércio de livros para obras de ficção escritas com a intenção de se enquadrar em um gênero literário específico, a fim de atrair leitores e fãs já familiarizados com uma convenção de coisas específicas.


Que convenção é essa? Bem, colem comigo sobre a ficção científica. Uma coisa é você ler Frankenstein e outra é ler A Guerra dos Mundos ou ver Star Wars, ok? Todas elas são ficções científicas, mas seus subgêneros de ficção são bem diferentes, uma é sobre a velha ciência alcançar o feito de reviver um ser montado de cadáveres, outra é sobre alienígenas invasores na Terra e a última, que nem se passa na Terra, é uma guerra numa galáxia com outros alienígenas, naves e robôs. Isso são convenções dentro da ficção científica que criou seus subgêneros ficcionais: Ficção científica gótica (Frankenstein), Invasão alienígena (A Guerra dos Mundos) e Space Opera / Ópera Espacial (Star Wars).


Assim como para com a fantasia — que podemos ter a fantasia científica, fantasia urbana, fantasia sombria, alta/baixa fantasia, e tantas outras milhares —, todos gêneros que criam e replicam convenções acabam por criar subgêneros novos. Por exemplo, o que já foi citado nesse parágrafo, muitas histórias de fantasias escritas num ambiente de cidade moderna criaram o subgênero fantasia urbana.


Para facilitar uma conclusão, basta entender que gênero de ficção é aquilo que todos nós buscamos saber do que se trata o filme/livro quando perguntamos o “gênero”: ação, fantasia, terror, sci-fi, histórico, paranormal, realista, infantil, adulto, romance, criminal, e por aí segue infinitamente com os subgêneros de ficção. Se quiser coisas mais específicas ainda, recomendo ler o glossário de termos de escrita, lá é recheado dos gêneros e subgêneros mais únicos.


É bom também ver que, assim como tem gêneros de ficção, há também os gêneros de não-ficção. A não-ficção visa apresentar eventos e informações reais com maior precisão possível, enquanto a ficção é tudo que é imaginário. Embora muitos livros de não-ficção ainda sejam sobre histórias, são muitas vezes dedicados a informar os leitores dos fatos. Aí nesses livros teremos alguns gêneros de não-ficção, como: biografia, autobiografia, história, viagem, filosofia, memórias, autoajuda, desenvolvimento pessoal, religião, e ensinos como ciência, arte, psicologia, etc.; sério, tem muitos.


Para complementar ainda mais ao tópico do gênero ficcional, há o termo que a indústria e sites usam muito que são as “tags”, também traduzido como “categoria de gênero”. Não é propriamente um gênero, mas uma pequena parte dentro de um (sub)gênero de ficção, por isso “tag”.

Exemplo de tag: “protagonista homem” / “protagonista mulher” ou “vingança” / “viagem no tempo”.


Cada um desses exemplos não é um gênero nem subgênero de ficção, mas pode estar incluído dentro de um, como o caso de fantasias com uma protagonista mulher que volta no tempo para se vingar. Há um subgênero da fantasia definido para esse tipo de história? Não no ocidente — até onde eu saiba — mas há o gênero que chamam de Nidome no Japão que encaixa perfeitamente no caso, sendo majoritariamente feito em cima de obras de fantasia.

 

Aperte na imagem para uma melhor visualização.

uma explicação breve sobre os gêneros ficcionais
 

Os Gêneros Literários


Com isso dito, espero que nunca mais errem o nome, porque agora vem o bicho brabo. O gênero literário é uma categoria de composição literária, e é aqui que o povo confunde tanto. Claro, com o que foi dito anteriormente, ficou claro o termo correto, mas a problemática de pessoas se enganarem com “gênero” ainda permanece.


A palavra gênero é uma categorização — um tipo de alguma coisa, no caso. Gênero de ficção é uma categorização de coisas dentro de uma ficção; gênero literário é a categorização de alguma coisa literária (de algo escrito). Pode parecer que ambas coisas são a mesma, mas não são — elas se interligam, se tocam, mas não são a mesma coisa. Para existir uma ficção, não precisa fazer parte de algo escrito, assim como um filme que pode ser reduzido em “filme de mitologia”, ou mesmo um sonho ou um pensamento do tipo: “sonhei que estava na guerra; imagina ser o maior soldado que já se viu”. A ficção pode ser escrita, mas não é sempre necessariamente, já a literatura é sempre escrita.


O gênero literário está muito atrelado ao formato da obra, não tanto ao conteúdo, mas sim ao molde que é feito e que podemos analisar sobre aquele produto escrito. Enquanto o gênero ficcional se atrela a forma como podemos resumir o conteúdo de um livro/filme, o gênero literário está ancorado em como o livro foi escrito: com prosa ou poesia, talvez os dois juntos ou mistura dessas técnicas; é narrado em perspectiva ou busca uma reflexão através da voz do “eu” lírico, talvez nenhum dos dois, como é no caso dos textos teatrais.


São essas coisas que vão nos dizer o gênero literário da obra. No caso, encontraremos apenas três (alguns diriam quatro, contando o argumentativo) gêneros: o lírico, o dramático e o épico-narrativo. Os dois primeiros serão breves, uma vez que não é o objetivo da Novel Brasil.


O gênero literário lírico, ou apenas gênero lírico, trata-se das obras escritas em poesia, ou seja, os poemas. Para termos de comparação, a poesia é o que a prosa é para nós, o formato e a técnica de escrita. Na poesia, versos são cada uma das linhas que compõem um poema; quando montamos um bloco de versos, cria-se uma estrofe, o que para nós, prosadores, seria o equivalente a um parágrafo.

 

Exemplo:

O Deus-Verme

de: Augusto dos Anjos

(1º verso) Fator universal do transformismo.

(2º verso) Filho da teleológica matéria,

(3º verso) Na superabundância ou na miséria,

(4º verso) Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

(1ª estrofe)


Jamais emprega o acérrimo exorcismo

Em sua diária ocupação funérea,

E vive em contubérnio com a bactéria,

Livre das roupas do antropomorfismo.

(2ª estrofe)


Almoça a podridão das drupas agras,

Janta hidrópicos, rói vísceras magras

E dos defuntos novos incha a mão...

(3ª estrofe)


Ah! Para ele é que a carne podre fica,

E no inventário da matéria rica

Cabe aos seus filhos a maior porção!

(4ª estrofe)

 

Como o objetivo aqui não é explicar sobre rimas, versificação, dos nomes das estrofes por quantia de versos, metrificação, etc., foquemos no que essa técnica resulta quando vira uma obra literária. Uma obra no gênero lírico acaba criando subgêneros dependendo do seu conteúdo: poema, canção (a letra de uma música é escrita em poesia), um livro de poesias, ode, elegia, epitalâmio; e os nomes complicados continuam...


Esse gênero explora muito a musicalidade das palavras (não sendo à toa o motivo de ser assim que compõe as canções), as emoções e os sentimentos. Pode ser bem-vindo também ressaltar que a poesia acaba também “invadindo” outros gêneros literários, criando assim novos subgêneros que aparecem em todos gêneros literários: poesia épica (epopeia [guarde esse nome]) e a poesia dramática.


No caso do gênero dramático, já se produz outras categorias de obras literárias. São textos escritos para encenações, performances de atores e/ou cantores. Você pode até ficar curioso sobre a técnica que esse querido usa para ser escrito, mas basta pensar um pouco que já chega na resposta: os dois, ou um só. Se o objetivo é apenas encenar, sem a parte musical, a prosa é o suficiente. Se for totalmente um musical, a poesia será a escolha. Mas se for uma obra que é tanto encenar quanto cantar? Os dois juntos.

 

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diferenciação de cada escrita de texto teatral em técnicas únicas
 

Então alguns podem ficar confusos como que pode usar as duas técnicas e não ser um dos dois ou ser apenas um. Isso porque não é só a técnica (prosa/poesia) que define o gênero literário, mas também a intenção do material. Fica claro que a canção é para ser encenada, assim como os diálogos (discursos diretos) são imediáticos de quem encenará.


A lírica busca expressar musicalidade, emoções e sentimentos por meio da perspectiva do “eu” lírico/poético. Ela representa o resultado gerado pelo pensamento inicial que influencia a mente humana, dispensando a necessidade de personagens, um mundo ou tempo específico. Em contrapartida, o texto dramático se distingue de uma narrativa convencional ao incorporar recursos que são escritos para serem dados à vida no palco. A encenação, a coreografia, o figurino, entre outros elementos, convergem para transmitir mensagens ao público de maneira viva, sem a necessidade das palavras. Mas e o que ainda não falamos?


O gênero literário épico-narrativo, ou apenas gênero narrativo, é o que mais nos interessa, romancistas e noveleiros de plantão. Comecemos, então, pela parte que é mais difícil de entender se você está vendo pela primeira vez — o significado de “épico-narrativo”, ou melhor, a história por trás.


A primeira palavra “Épico” é advinda de um subgênero lírico, a poesia épica (epopeia); no entanto, o que ele tem de tão diferente que conseguiu criar um novo gênero literário? Bem, não é exatamente o que ele tem de especial, mas o que ele busca tratar como poesia. Épicos, antigamente, eram histórias heroicas, centradas sobre grandes aventuras, feitos e ações de personagens magnânimos em algum ponto da história, por mais que não fosse de fato a representação real do nosso mundo.


Para um bom entendedor, meia palavra basta, né? Se subirem e olharem como a lírica é descrita, verão que a poesia épica tinha um caminho muito diferente do que é normalmente esperado da poesia. Ela contava uma narrativa, dessa forma, muitas pessoas viam nas epopeias um novo propósito. Ao mesmo tempo que isso ocorria, a prosa ganhava mais força entre o povão comum, já que a poesia era ensinada apenas para a elite.


Bem, como é uma longa história essa parte da prosa vs. poesia (e que ficaria melhor em um artigo próprio), só saibam que, em resumo, basicamente a elite gritava poesia e fazia seus floreios com as palavras, enquanto o povão queria só saber das informações de uma vez, sem firula e joguetes de sentidos. Bem, como já deu para ver, a prosa virou a técnica padrão de escrita mais conhecida no mundo ocidental, enquanto a poesia continuou sendo para os “eruditos”. Claro, isso não foi de um dia para o outro, mas uns bons séculos contando histórias e escrevendo-as.


Portanto, o que significa “épico”, além de “algo foda”? Bem, é meio bobo dizer, mas é o propósito das obras épicas: serem narradas… Ou seja, épico = narrativo. Hoje em dia é comum sabermos que as histórias que lemos vão ter: personagens, um mundo com sua própria história e um narrador; mas a poesia, que era a forma mais antiga de passar uma história, não tinha esse propósito, dessa forma, temos a criação do gênero narrativo. Logo, todas obras nesse gênero são trabalhos com propósito de acompanhar personagens, num enredo, dentro de um espaço e tempo únicos e com um narrador para focar em coisas específicas.


Como a palavra “épico” ficou meio datada para os valores atuais, a melhor forma de nos ligarmos ao gênero é com a palavra “narrativo”, que tem o mesmo valor, mas com ideal diferente, e também podemos evitar a confusão com epopeias por aí.


Depois que as epopeias começaram a serem escritas por prosa, acabou que esse subgênero literário ficou atrelado ao lado da lírica e narrativo, mas conseguiu criar diferenças marcantes e com distintas produções com esse objetivo de acompanharmos personagens. Os subgêneros literários que foram se criando foram as prosas curtas, que são os microcontos, minicontos, contos, já as obras com uma prosa de proporção maior seriam as noveletas, novelas e romances (novels).


Vou evitar me aprofundar muito nos subgêneros narrativos do romance, mas, acreditem, são demais. Tem um artigo que fiz sobre a prosa de novel, onde eu falo melhor do nascimento do subgênero literário romance e o que se tornou nos dias atuais. Uma forma de exemplificar o que vou falar sobre isso de “modificar o molde de um subgênero literário convencional — no caso, romance/conto/novela — , é o exemplo abaixo, mas recomendo que leia o artigo acima para uma melhor compreensão.


“Sou um escritor, produzi uma obra em prosa (escrita linha a linha), e ela passou de 45 mil palavras, se encaixando como um romance… O mundo é construído pela ambientação do século 18, num cenário que busca o medo, a ameaça, desolação, com eventos paranormais, digno de edifícios em ruína, ainda remarcados da Idade Média. Teremos mais do que um narrador, para recontar velhos mitos e um para acompanhar o protagonista, um padre que busca a verdade pelos casos do desaparecimento de órfãos, atormentado pelos seus próprios traumas.”

Não é um exemplo muito honesto, mas funciona. Vejam que eu, já no exemplo, defino que é um romance, pelo padrão comum do subgênero literário, mas para encaixar em um tipo de romance específico, eu preciso analisar padrões comuns: o tipo de enredo, narrador e a forma de tratar os personagens. Com isso visto, consigo verificar o subgênero narrativo correto desse romance, que seria o romance gótico. Para ser mais específico ainda, se passasse com características de um país, digamos que a frança, então podemos chamar de romance gótico francês? Depende. Depende de como esses romances góticos franceses tratam também dos mesmos assuntos de enredo, tempo-espaço, personagem e narrador.


E se o exemplo fosse sobre uma obra em prosa que tem o tamanho de um conto, então seria a mesma coisa para ele, encaixando como um conto gótico. Quanto mais características puxar de algumas obras, mais direcionado a uma caixinha específica será. É assim que funcionam os subgênero literários, ou para esse caso das caixinhas, os subgêneros narrativos.


“Ah, mas não dá para inovar? Tipo, colocar alienígenas interdimensionais nesse conto gótico aí.” Claro que sim. Você pode acabar criando seu próprio subgênero, como seria o caso do H.P Lovecraft, com o seu terror cósmico.

 

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uma explicação breve sobre os gêneros literários
 

Repeteco final


Então, para concluirmos a separação, a diferença entre gênero literário e o gênero ficcional é:


  1. Gênero literário é formulaico, ou seja, segue padrões e um molde comum, como a técnica escrita e o propósito do trabalho. Por exemplo, o narrativo vai usar a técnica de escrita da prosa e o propósito é contar uma história de um (ou mais) personagem(ns) num mundo através de um narrador. Quando esse produto se estende ou é minimizado cria-se algo entre: conto, novela ou romance. Se há características padrões de um autor sobre um desses subgêneros, então cria-se um conto (subgênero narrativo X), novela (subgênero narrativo Y) ou um romance (subgênero narrativo Z), como dito do romance gótico acima.

  2. Gênero ficcional é de cunho comercial, para brevidade de resumir uma obra ao público; normalmente são as características encontradas dentro do enredo, das quais podem ser das mais comuns, — como qualquer tipo de obra ter um protagonista homem — até para coisas mais complexas e únicas — ter um mundo de fantasia e lá haver resquícios de um passado ultratecnológico ou alienígena. Exemplo: o gênero ficcional do romance (esse aqui não é o subgênero literário, viu), que há subgênero como o do harém, slowburn ou adulto.


O uso comum de gêneros ficcionais em romances/novelas/contos pode gerar subgêneros literários, ou mais especificamente, gerar gêneros narrativos? Sim. Lembrem-se que o primeiro (gênero literário) é para a demarcação dos produtos de um escritor, enquanto o segundo (gênero ficcional) é do comércio de livros, dedicado ao público. Elas são ligadas, mas não são a mesma coisa.


O gênero ficcional do isekai, até alguns anos atrás, era apenas uma característica de uma obra, não o foco dela, mas acabou sendo replicada tantas vezes em diferentes produções que hoje em dia é possível encontrar até a categorização como subgênero narrativo do romance: “romances isekai”.


Então, queridos escritores, eu, Rose Kethen, espero que tenham aprendido a diferença e que nunca mais errem isso!, senão vai dar ruim para vocês na tutoria!


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